Montanhas e patrimônio: Bahlā', Jebel Akhdar, Nizwá e a Grande Mesquita de Omã

Antigos fortes de adobe, vilarejos-oásis cheios de palmeiras ao pé das falésias, mirantes de cânions a 2.000 metros e uma das mesquitas mais bonitas do mundo.

Vista panorâmica do Jebel Akhdar com vilarejos encarapitados e antigos terraços — Omã
Foto por Theo R / Unsplash

O interior de Omã não se parece em nada com o Golfo perto de Dubai que você talvez esteja imaginando. A uma hora de carro de Mascate, o terreno sobe forte rumo à cordilheira do Hajar — picos recortados, cânions profundos e vilarejos espalhados que sobrevivem com sistemas de irrigação antigos de mais de mil anos. É aqui que mora a alma de Omã, e é aqui que a gente começou a viagem de duas semanas em família pela estrada.

Passamos os três primeiros dias explorando as montanhas em torno de Bahlā', Nizwá e o platô do Jebel Akhdar, e voltamos para a costa só no final, para a Grande Mesquita — o crescendo arquitetônico da viagem. Juntas, essas duas pontas emolduram o roteiro com o profundo patrimônio cultural de Omã.

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Misfat al Abriyyin

Nossa primeira parada deu o tom da viagem inteira. Misfat al Abriyyin é um vilarejo minúsculo agarrado a um paredão de rocha sobre um palmeiral denso, alcançado por uma estrada estreita que sai da rodovia perto de Bahlā'. Você estaciona no alto e desce a pé — escadas de pedra alisadas por séculos de uso, um falaj (canal de irrigação) gorgolejando ao lado, tamareiras se fechando dos dois lados.

O exuberante oásis de palmeiras de Misfat al Abriyyin com as antigas ruínas de pedra do vilarejo encarapitadas na encosta — Bahlā', Omã
O exuberante oásis de palmeiras de Misfat al Abriyyin com as antigas ruínas de pedra do vilarejo encarapitadas na encosta — Bahlā', Omã

O vilarejo em si é um amontoado de casas de pedra cor de mel, algumas restauradas, outras desmoronando, com vielas estreitas costurando o caminho entre elas. A gente caminhou por cerca de uma hora, as crianças correndo na frente nos atalhos enquanto a gente parava para fotografar cada ângulo desse lugar que parece te levar 500 anos para trás.

Escadaria de pedra pelo cânion cheio de palmeiras com terraços antigos — Misfat al Abriyyin, Omã
Escadaria de pedra pelo cânion cheio de palmeiras com terraços antigos — Misfat al Abriyyin, Omã

Numa casa mais funda no vilarejo, vimos uma mulher fazendo pão tradicional omanense — khubz rakhal — em um forno de pedra, sovando a massa com naturalidade enquanto o fogo crepitava embaixo. Foi um daqueles encontros não programados que transformam um passeio turístico em uma troca cultural de verdade.

Mulher omanense em traje tradicional fazendo pão em forno de pedra dentro de uma casa tradicional — Bahlā', Omã
Mulher omanense em traje tradicional fazendo pão em forno de pedra dentro de uma casa tradicional — Bahlā', Omã

Misfat se visita melhor de manhã, antes do calor apertar. Tem um café pequeno no alto onde você pode tomar um café antes ou depois da caminhada. Reserve uns 90 minutos para uma visita tranquila.

Bahla Fort

De Misfat, é uma viagem curta até Bahla Fort — Patrimônio Mundial da UNESCO e uma das maiores fortalezas de Omã. Erguido em adobe ao longo de vários séculos, o forte se espalha pelo topo de uma colina como uma cidadezinha, com torres, pátios e passagens que parecem não acabar.

Vista panorâmica do alto de Bahla Fort com os prédios em adobe e a cidade lá embaixo — Bahlā', Omã
Vista panorâmica do alto de Bahla Fort com os prédios em adobe e a cidade lá embaixo — Bahlā', Omã

A gente subiu até o topo da torre principal, de onde a vista da cidade de Bahla e das montanhas em volta é notável. O forte foi muito restaurado — algum purista pode torcer o nariz, mas a escala do lugar impressiona do mesmo jeito, e as crianças adoraram explorar o labirinto de salas e escadas.

O souk ao lado vale uma volta rápida. Foi reconstruído mas mantém um traçado tradicional, e dá para levar a famosa cerâmica de Bahla — a cidade é um polo de cerâmica há séculos.

A entrada custa pouco (alguns rials). Reserve cerca de uma hora para o forte, mais se as crianças forem do tipo explorador.

Jebel Akhdar — A Montanha Verde

Das terras baixas em torno de Bahlā' e Nizwá, uma estrada sobe íngreme para o maciço do Jebel Akhdar — a parte mais alta da cordilheira do Hajar, passando dos 3 000 metros no pico. A estrada até o platô é totalmente asfaltada mas íngreme e cheia de curvas, e a paisagem muda drasticamente conforme você ganha altitude. O ar esfria, a vegetação muda, e de repente você está a 2 000 metros com vistas de cânions que te param no caminho.

Vista panorâmica do vale montanhoso em terraços com vilarejos antigos encarapitados nas falésias — Jebel Akhdar, Omã
Vista panorâmica do vale montanhoso em terraços com vilarejos antigos encarapitados nas falésias — Jebel Akhdar, Omã

A gente passou um dia dirigindo e caminhando pelo platô, parando em mirantes onde cânions profundos se abriam debaixo dos pés. Em um ponto, eu sentei na beira de um penhasco com as pernas balançando — ou melhor, eu sentei enquanto minha esposa, com bom senso, ficava um metro atrás — e olhamos um vale tão fundo e estreito que o fundo continuava na sombra mesmo ao meio-dia. Atividades guiadas e passeios pelo Jebel Akhdar também estão disponíveis se você prefere explorar com um especialista local.

Pessoa sentada na beira de um cânion enorme ao pôr do sol, silhueta recortada contra o céu a 1 900 m — Jebel Akhdar, Omã
Sentado na beira de um cânion enorme ao pôr do sol, silhueta recortada contra o céu a 1 900 m — Jebel Akhdar, Omã

O platô é conhecido pelos jardins de rosas e pomares — romãs, nozes e damascos crescem em jardins em terraços com séculos de história. Se você for em março ou abril, a colheita da rosa de Damasco perfuma o ar. A gente estava lá em dezembro, então os terraços estavam dormentes mas ainda lindos na precisão geométrica contra a rocha nua.

Aviso prático: a estrada que sobe para o Jebel Akhdar é restrita e tecnicamente exige um veículo 4x4. Tem um posto policial no pé. Na prática, qualquer carro com vão livre decente faz — a gente estava num Suzuki Vitara e não teve problema. A estrada é totalmente asfaltada; a restrição é por causa do declive, não do piso.

Nizwá

Nizwá foi a capital de Omã por séculos e segue como o coração cultural do interior. O forte de torre redonda da cidade é o mais reconhecível do país — um enorme tambor de adobe que você pode subir para ter vistas de 360 graus dos palmeirais e das montanhas.

Cena de estrada perto de Nizwá com cabras atravessando e um carro esperando, montanhas atrás — Nizwá, Omã
Cena de estrada perto de Nizwá com cabras atravessando e um carro esperando, montanhas atrás — Nizwá, Omã

A verdadeira atração para a gente foi o souk, que se espalha em volta da base do forte. Vielas estreitas saem em todas as direções, vendendo de tudo, de tâmaras e mel a punhais khanjar e incenso. O clima é animado sem ser sufocante, e os vendedores são simpáticos em vez de insistentes.

Se você conseguir encaixar a visita em uma sexta de manhã, a feira de gado é lendária — um espetáculo caótico, barulhento e completamente envolvente de comércio de cabras e gado que no fundo não mudou em gerações. Perdemos por um dia e ainda lamentamos.

Vale montanhoso panorâmico com agricultura em terraços e vilarejos espalhados — região de Nizwá, Omã
Vale montanhoso panorâmico com agricultura em terraços e vilarejos espalhados — região de Nizwá, Omã

Nizwá é uma base excelente para a região montanhosa. Os hotéis aqui vão do econômico ao médio confortável, e a cidade tem a melhor seleção de restaurantes fora de Mascate. Você também pode explorar guesthouses e opções de hospedagem no mapa Stay22 da região de Nizwa. Passamos duas noites aqui e foi suficiente para cobrir os principais pontos sem correr.

A Grande Mesquita do Sultão Qaboos

Guardamos a Grande Mesquita para o nosso último dia — 1° de janeiro — e foi a forma perfeita de fechar a viagem. Localizada em Bawshar, na periferia de Mascate, a Grande Mesquita do Sultão Qaboos é uma das maiores e mais bonitas mesquitas do mundo, e abre para visitantes não muçulmanos toda manhã, exceto sextas.

A escala do lugar tira o fôlego. Você se aproxima por jardins paisagísticos com um caminho central ladeado por fontes, a cúpula dourada e o minarete crescendo a cada passo. O exterior é todo em mármore branco — arenito indiano e mármore italiano — com motivos geométricos embutidos em pedra colorida.

Os jardins formais e o caminho das fontes da Grande Mesquita com o minarete ao fundo — Bawshar, Omã
Os jardins formais e o caminho das fontes da Grande Mesquita com o minarete ao fundo — Bawshar, Omã

Mas é o interior que realmente tira o fôlego. A sala de oração principal é um espaço enorme — 74 metros quadrados sob uma cúpula de 50 metros de altura — iluminada por um lustre de cristal Swarovski que pesa oito toneladas. O tapete sob seus pés é de uma peça só, tecido à mão por 600 mulheres iranianas durante quatro anos, cobrindo 4 343 metros quadrados. Ele segurou por vários anos o recorde do maior tapete feito à mão do mundo.

Interior panorâmico da sala de oração principal da Grande Mesquita com cúpula ornamentada e lustres de cristal — Bawshar, Omã
Interior panorâmico da sala de oração principal da Grande Mesquita com cúpula ornamentada e lustres de cristal — Bawshar, Omã
O imenso tapete persa azul e os lustres dourados se estendendo até o longe — Grande Mesquita do Sultão Qaboos, Omã
O imenso tapete persa azul e os lustres dourados se estendendo até o longe — Grande Mesquita do Sultão Qaboos, Omã

A atenção ao detalhe é extraordinária em qualquer escala. A gente passou vários minutos estudando o trabalho de mármore embutido no chão — motivos geométricos islâmicos executados em pedra verde, vermelha e ocre com uma precisão que beira a obsessão.

Close do motivo geométrico em estrela de mármore embutido no chão da mesquita — Grande Mesquita do Sultão Qaboos, Omã
Close do motivo geométrico em estrela de mármore embutido no chão da mesquita — Grande Mesquita do Sultão Qaboos, Omã

O exterior impressiona na mesma medida pela serenidade monumental. A cúpula dourada pega a luz de modo diferente ao longo da manhã, e as proporções da fachada — arcos, janelas, ameias — estão perfeitamente equilibradas.

A fachada de mármore branco e a cúpula dourada da Grande Mesquita do Sultão Qaboos — Bawshar, Omã
A fachada de mármore branco e a cúpula dourada da Grande Mesquita do Sultão Qaboos — Bawshar, Omã

Informações práticas: Entrada gratuita. Aberto de sábado a quinta, 8h–11h para visitantes não muçulmanos. O dress code é rigoroso — manga comprida, calça/saia longa e lenço na cabeça para mulheres (emprestado no local). É permitido tirar fotos. Reserve pelo menos uma hora, idealmente mais. Você também pode dar uma olhada nos tours guiados da Grande Mesquita e de outros pontos turísticos de Mascate se prefere visitas estruturadas.

Como chegar e onde ficar

A região montanhosa fica a cerca de duas horas de carro de Mascate por uma rodovia rápida. Nizwá é a base óbvia — tem a maior seleção de hospedagens e restaurantes, e tudo neste artigo está dentro de uma hora de carro. Você pode organizar um aluguel de carro pelo Trip.com para explorar no seu ritmo.

Para a Grande Mesquita, dá para visitar na ida ou na volta do aeroporto, se o horário do voo bater — ela fica a uns 30 minutos do terminal.

Se você combinar isso com o resto de uma viagem por Omã (deserto + wadis), as montanhas funcionam melhor como começo ou fim do circuito. A gente começou aqui, o que nos deu uma base cultural antes de partir para as paisagens mais selvagens do deserto e da costa.

Bahlā, Jebel Akhdar e Nizwā ficam todas em um raio de 2 horas de Mascate — voe para MCT, alugue um 4×4 (obrigatório para a estrada de montanha do Jebel Akhdar) e instale-se em Nizwā por duas noites. Os voos diretos da Oman Air vindos da Europa pousam no meio da manhã, perfeitos para dirigir até as montanhas no mesmo dia.

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